São Paulo: Lembranças da Avenida Paulista.

por Gustavo Neves da Rocha

1942
Comecinho do mês de abril.
Onze horas da noite.
Avenida Paulista.

            Calçadas desertas, rua deserta, os trilhos do bonde refletindo a luz das luminárias penduradas bem no centro da via lá no alto em fios que a escuridão da noite escondia. De cada lado, sobre os passeios, a massa escura das árvores plantadas muito próximas umas das outras, talvez uns três ou quatro metros.

            Nessa noite eu não era pedestre. Menino ainda, acabava de chegar de uma viagem de férias e estava ao lado do motorista. Quando o automóvel, subindo pela Rua Teodoro Sampaio e avançando pela Avenida Doutor Arnaldo entrou na Avenida Paulista. A imagem que eu vi ficou gravada para sempre na minha memória. Daí a instantes eu estaria em casa da vovó, modesta casinha com seu jardim e quintal lá na Rua Batatais. A Paulista, naquela noite, estava bem diferente daquela avenida que eu percorria, durante o dia, até a esquina da Rua Augusta, ou até um pouco mais adiante.

            As férias terminaram e as aulas no Colégio São Luís, na esquina da Rua Bela Cintra, recomeçaram. O mês de julho chegou e com ele o Dia do Sagrado Coração de Jesus. Fardados de branco, como todos os alunos das outras escolas católicas, eles desfilavam garbosamente pelas ruas da cidade. O palco do Colégio São Luís era a Avenida Paulista, sem nenhum carro, sem nenhum bonde. O guarda de trânsito, que apelidavam de “grilo” pelo seu apito estridente, cuidava do sossego da rua. Mas nem era preciso pois o bonde que vinha da cidade – era como chamavam o atual centro histórico – vinha pela Rua Brigadeiro Luiz Antônio, percorria um pequeno trecho da Avenida Paulista e descia pela Rua Pamplona até o Jardim Paulista. Automóveis, então, eram raros. Durante o desfile poucas pessoas, em geral os pais, ocupando as calçadas entre as árvores junto ao meio fio.

            Anos depois eu andaria pelas mesmas calçadas até a Rua da Consolação, ou para pegar o bonde Pinheiros, ou para comprar pão ou doces na Padaria Primavera. Nesse tempo eu ainda não me interessava por arquitetura e o que me chamava a atenção eram as muretas baixas que cercavam os terrenos das casas construídas longe do alinhamento, em meio a muitas árvores.

            Do outro lado da rua, a Capela do Colégio São Luiz parecia ter uma altura descomunal, hoje bem pequena junto aos prédios seus vizinhos de mais de trinta andares. Certa vez, causou-me surpresa uma enorme placa com os dizeres “Clínica Medica” pregada num daqueles casarões situados entre as ruas Bela Cintra e Haddock Lobo. Certamente os médicos da Faculdade de Medicina, ali perto na Avenida Doutor Arnaldo, estavam abrindo seus consultórios e o uso residencial da Avenida Paulista começava a mudar.

1962.
Uma tarde do mês de abril.
Avenida Paulista.

            Eu já não era mais pedestre. Meu carro estava estacionado em frente ao Conjunto Nacional, onde eu instalara o meu escritório. Na calçada, o Restaurante Fasano colocara suas mesas cercadas por vasos de flores onde eu recebia meus amigos para um papo informal. Na rua circulavam carros, ônibus e bondes mas não chegavam a nos incomodar com seus ruídos. Nas calçadas circulavam poucas pessoas, mas nos intervalos das aulas os alunos do Colégio Paes Leme, ali na esquina da Rua Augusta, atravessavam a rua e tomavam de assalto o saguão do Conjunto Nacional com aquela algazarra própria dos jovens.

            Os anos foram passando e o meu carro não podia mais ficar estacionado na Avenida Paulista. Passei a deixá-lo na Alameda Santos, depois na Alameda Jaú e, com o crescimento do número de automóveis, só ia encontrando vagas cada vez mais longe, nas alamedas Itu, Franca, Lorena e ia me tornando outra vez um pouco pedestre. Até que abandonei de vez o automóvel.

2012.
Mês de junho, meio da semana.
Seis da tarde.
Avenida Paulista.

            Fazia meia hora que eu percorria as calçadas da avenida, muito largas, com o piso adequado aos meus passos de velhinho octogenário, com muitas pessoas caminhando ao meu lado, despreocupadas, algumas parando para com o seu celular fotografar algum edifício mais especial. Na avenida, agora de uma largura desmesurada, circulavam ônibus e automóveis de todas as marcas e cores. Mas eis que tudo muda. As calçadas foram tomadas por uma multidão apressada que corria para as escadarias do metrô ou para se aglomerar nos pontos de parada dos ônibus. Os ônibus e os carros pararam como se a avenida fosse um grande estacionamento. Lembrei-me da Avenida Paulista deserta, e até do tapete amarelo que era formado quando as flores dos ipês junto ao meio fio caiam no fim da primavera.

            Por que tanta gente na rua, tanto carro, tantos ônibus, naquela hora? Mais de vinte milhões, na Região Metropolitana de São Paulo – assegura o IBGE. O que será de São Paulo quando, daqui a quarenta anos, completar 500 anos? Os meninos de hoje lembrarão das suas manobras arriscadas percorrendo de skate as amplas calçadas da Avenida Paulista? Não sei.

COMO CITAR ESTE TEXTO (ABNT 2017):

ROCHA FILHO, Gustavo. São Paulo: Lembranças da Avenida Paulista. 2018. Disponível em: <http://historiadesaopaulo.com.br/sao-paulo-lembrancas-da-av-paulista/>. Acesso em: ___.

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