Vila de São Paulo: evolução do traçado urbano

por Gustavo Neves da Rocha Filho

Trinta anos depois da instalação da Vila de São Paulo os lotes no interior da área limitada pelos muros de taipa de pilão já estavam todos ocupados. O quarto lado da praça, que estava aberto para o terreiro dos jesuítas, foi fechado em 1592 com a construção de um correr de sobrados por Domingos Luiz Grou.

Dois anos antes, a 26 de março de 1590, o procurador do Concelho Gonçalo Madeira solicitara que se nomeassem dois homens para partidores de terra sendo nomeado um homem para a demarcação de novos lotes. (ATAS, 1967:391)

Ainda com o objetivo de abrigar maior número de moradores os oficiais da câmara, em 16 de fevereiro de 1591, pediram que

“se alargasse a cerca por fora de maneira que haja espaço para que fique a gente agasalhada e haja espaço para pelejarem, sendo necessário” (ATAS, 1967: 415)

A população aumentara e a vila e seu termo passava de 150 moradores quando os vereadores pediram ao Governador Geral a nomeação de um vigário para a igreja que desejavam construir, conforme ata do dia 1° de maio de 1589. (ATAS, 1967:370)

Nesse fim de século, 4 de maio de 1591, a vila dispunha de apenas três caminhos principais os quais percorriam as fazendas dos moradores e se dirigiam ao mar, em São Vicente. (ATAS, 1967:419)

Eram eles o caminho do Ibirapuera que deu origem à atual rua Quintino Bocaiuva, o caminho do Piqueri, atual rua Quinze de Novembro e o caminho de Pinheiros, atual rua José Bonifácio. (Fig.1)

A primeira rua aberta fora dos muros da vila deve ter sido a rua de São Bento por apresentar as melhores condições de aproveitamento dos lotes. Estes foram demarcados com frentes de duas e três braças e profundidade de vinte e trinta braças. A rua seguiu por um terreno absolutamente plano, desde o caminho do Piqueri até o caminho de Pinheiros, deixando de um lado a aldeia abandonada de Tibiriçá e do outro a encosta do vale do Anhangabaú. A solução foi a mais favorável para os usos da época pois permitia que as casas fossem construídas no alinhamento da rua e os quintais tivessem o escoamento das águas para o fundo do lote.

Na mesma ocasião foi aberta a atual rua Direita que teve esse nome desde a sua origem, pois percorreu um antigo caminho que ia “direito” da ermida de Santo Antonio para a vila. No cruzamento com a rua de São Bento formou um ângulo reto o que leva a crer que o profissional responsável, em geral um carpinteiro, utilizou a bússola na sua demarcação. (Fig. 2)

No próprio ano de 1598, na sessão de 9 de abril, mandaram os oficiais da câmara

“que se limpassem os caminhos por onde passam as procissões, assim de Endoenças como as demais, e testadas de suas casas e muros, ao menos fora dos muros duas braças e isto afora o caminho da cruz”. (ATAS, 1967:348)

As procissões seguiam o mesmo trajeto feito pelos jesuítas, indo pelo caminho do Piqueri até o alto da cruz colocada na atual Praça Antonio Prado, contornando a aldeia dos índios e beirando a encosta até o antigo caminho da ermida de Santo Antonio, por onde seguia até terminar na igreja dos padres.

No final do século XVI foram descobertas as primeiras minas de ouro, prata e ferro nos arredores da vila, nas serras do Jaraguá, Guarulhos, Voturuna, Araçariguama e outros locais mantidos em segredo. Os fatos que ocorreram sem seguida foram de grande importância para o crescimento da vila de São Paulo.

Assim que o Governador Geral do Brasil, na Bahia, D. Francisco de Souza recebeu as primeiras amostras de minério não tardou em mudar-se para São Paulo, onde chegou em 1599.

Em 1605 deixou o cargo de governador indo para o Reino levando dois mineiros espanhóis, testemunhas das descobertas que haviam feito. No Reino conseguiu obter sua nomeação para Governador da Repartição Sul e, cercado de grande comitiva, em 1609 já se encontrava novamente em São Paulo.

Segundo o historiador Francisco de Assis Carvalho Franco,

“D. Francisco soube trasladar da corte um grupo de escol, com representantes de todas as camadas sociais, inclusive engenheiros como Domingos Rodrigues, Bacio de Filacaia, Wilhem Jost ten Glimmer”. (Carvalho Franco, [1953]:394)

Desde o anúncio da vinda do Governador os oficiais da câmara passaram a ter outras preocupações, algumas até muito curiosas tais como as relatadas nas atas de 20 de abril de 1599 ou 9 de agosto de 1603.

“era bem que houvesse um homem nesta vila que tivesse casa de comer” (ACTAS, 1915:37)

“era necessário na vila mulher vendeira porquanto vinha o governador” (ACTAS, 1915:132)

Com a chegada do governador e sua comitiva, os lotes vagos situados dentro dos muros da vila foram todos ocupados, o que obrigou a abertura de novas ruas. D. Francisco de Souza mandou que fossem abertas por seus engenheiros ruas de acordo com a teoria urbanística vigente, isto é, uma rua central e duas ruas traseiras formando quarteirões retangulares de modo que as casas fossem construídas no alinhamento da rua central e os quintais tivessem acesso pelas ruas traseiras.

O local escolhido para essas novas ruas desapareceu com a abertura da atual Praça da Sé, um terreno cuja declividade não superava os 5%. Ao lado de uma das ruas traseiras foi demarcada uma grande quadra para o quartel dos soldados, local atualmente ocupado pelo Palácio da Justiça. (Fig. 3)

Além da abertura de novas ruas o governador mandou que

“o povo tivesse Casa do Conselho, Cadeia e Pelourinho”.

Mas o assunto mais importante e de grande significado para a vila foi o discutido na sessão da câmara de 28 de julho de 1612.

“que atentassem para as ruas que os oficiais passados tinha arruado e O Sr. Governador, que Deus tenha, o ter mandado conforme um auto que disso está feito e que D. Luiz de Souza tinha mandado ao juiz Jusepe Camargo que não bulisse nisso.” (ACTAS, 1915:319)

D. Francisco de Souza não encontrou os metais que tanto ambicionava – Araçoiaba apenas revelou possuir ferro – e veio a falecer em meados de junho de 1611, deixando o governo para o seu filho.

A expansão da fronteira agrícola e pastoril durante o século XVII em direção a Santana de Parnaíba, Itu, Jundiaí e Atibaia deu origem a um acentuado crescimento da vila de São Paulo pois toda a produção destinada para exportação não tinha outra alternativa a não ser os antigos caminhos do mar que tinham origem nessa vila.

Assim, São Paulo deixou de ser apenas o centro de atividades administrativas, festivas, religiosas e ocupada só nos finais de semana para adquirir vida própria com a presença permanente de gente letrada, profissionais requintados, alfaiates, sapateiros, tecelões e até um grande número de ourives pois vinha muita prata da Bolívia através do Paraguai.

Além das ruas mandadas abrir por D. Francisco de Souza outras foram surgindo ao longo dos anos. Na sessão de 18 de abril de 1620 os oficiais da câmara determinaram que

“o caminho real muito antigo”

deveria ter 15 palmos de largura e na sessão de 29 de dezembro do mesmo ano determinavam que esse caminho deveria ser feito pelos carmelitas.

Finalmente, em 22 de abril de 1623 declararam os camaristas que o caminho estava feito. Tratava-se da atual rua do Carmo, fora dos muros da vila, o antigo caminho da fonte e que continuando pela ladeira da Tabatinguera atravessava o rio Tamanduateí pela Ponte Grande em direção a Guarulhos.

Além da remodelação do caminho da fonte foi prolongada a rua de São Bento numa das suas extremidades e aberta a rua de São Francisco, atual rua Benjamim Constant. (Fig. 4)

No primeiro caso deve-se ao fato de que

“pelo pé da capela fundada pelo Frei Mauro Teixeira era o caminho dos que vinham para a cidade, de Nossa Senhora da Luz, chamado Guaré, por devassar muito o recolhimento dos monges, fez o padre Prior Mateus petição a Câmara desta cidade para mudar por outra parte, como por efeito por devassar o mosteiro, e se serve hoje o povo por onde está”. (Anônimo, 1911:282)

No segundo caso deve-se ao fato de que a Ordem de São Francisco obteve em 1624 licença para instalar-se na vila e construir o seu convento. Obedecendo a normas eclesiásticas quanto às áreas de privilégio, que

“proibiam a proximidade dos conventos e mosteiros a menos de 600 metros uns dos outros” (Andrade, 1966:87).

A câmara concedeu aos franciscanos terras junto à ermida de Santo Antonio, transferindo depois para o lugar onde ainda hoje está, fazendo do ponto o vértice de uma triângulo formado pelas duas outras ordens religiosas, carmelitas e beneditinos.

Estes arruamentos devem ter sido planejados e executados por Pero Roiz Guerreiro contratado pela Câmara em 19 de julho de 1636 pois dois anos depois, na sessão de 7 de agosto de 1638, os vereadores fizeram referência a um grande melhoramento urbano,

“uma rua para nobreza da vila indo direita…” (Actas, 1915:399)

Em 23 de outubro de 1639 foi contratado Belchior de Borba para arrumador de terras, provavelmente para proceder ao loteamento das novas ruas. (Fig.5)

No final do século XVII a população da vila teria alcançado a marca de 4.000 habitantes, segundo estimativa de Francisco Correal que por aí esteve entre 1685 e 1690.

“A princípio a cidade contava uns cem fogos, que podiam consistir em umas trezentas ou quatrocentas almas, correspondendo alguns escravos e índios mansos. Nos últimos quinze ou vinte anos, porém, o seu número multiplicou-se pelo menos dez vezes, asseguram também que entre eles há aventureiros de todas as nações da Europa e muitos antigos flibusteiros” (Correal, 1919:7-20)

Com a descoberta do ouro em Minas Gerais, no entanto, houve um esvaziamento da vila de São Paulo pois grande parte dos homens para lá se dirigiu. É fato bastante conhecido que foram os paulistas que descobriram as novas minas, mas que de lá foram expulsos na denominada guerra dos Emboabas, pelo grande número de portugueses e forasteiros recém-chegados do Reino.

A capitania de São Vicente foi perdendo sua importância ficando relegada a segundo plano pela Coroa Portuguesa. Foi extinta em 1748 e subordinada ao governo do Rio de Janeiro. Entretanto, para satisfazer aos paulistas a vila de São Paulo foi elevada à categoria de Cidade pela Carta Régia de 11 de junho e 1711.

Os paulistas continuaram na busca de novas minas de ouro e finalmente as encontraram em Goiás e Mato Grosso. Em 1765 foi restabelecida a Capitania de São Paulo e para o seu governo foi nomeado D. Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão, Morgado de Mateus.

Uma das primeiras providências do novo governo foi coletar dados sobre a população realizando os recenseamentos de 1765 e 1767. O resultado foi revelar que os habitantes do “termo” da cidade somavam 14.760 assim distribuídos: 1.516 no núcleo central, 2.322 nos bairros limítrofes e 10.922 nos bairros periféricos.

Os bairros limítrofes eram Santa Efigênia, Brás, Penha, Nossa Senhora do Ó e São Bernardo. Os bairros periféricos, que bem mais tarde vieram a constituir novos municípios, eram Juqueri, Guarulhos, Cotia, Santo Amaro, Atibaia, Nazaré e Jaguari.

Com base no recenseamento de 1767 cujos habitantes foram distribuídos em 20 endereços foi possível estabelecer a planta do núcleo central, objeto deste ensaio. (Fig. 6).

As ruas da cidade não tinham nomes oficiais o que só aconteceu em 1809 quando, para facilitar o lançamento de um novo imposto denominado Décima Urbana, mandou o Ouvidor que fossem numerados os prédios e inscritos nas ruas os nomes pelos quais eram conhecidas.

As ruas mencionadas naquele recenseamento são as seguintes, com o respectivo número de fogos ou lares.

1. Rua Direita, do Largo da Sé até Santo Antônio. 42 fogos 

2. Rua do Anhangabaú e seus arrabaldes até o Aniceto, 16 fogos

3. Rua da Cadeia, que principia de Antonio Vaz até Dona Maria da Silva, 21 fogos

4. Rua do Secretário que principia no Largo da Misericórdia até o Pátio de São Gonçalo, 21 fogos

5. Rua Travessa da Freira e a do Ferrador até os muros do Fonseca, 14 fogos

6. Rua do Fonseca que principia no Pátio de S. Gonçalo até o Largo da Sé, 18 fogos

7. Rua do João Esteves até o Campo da Forca, 7 fogos

8. Rua do Paço do Bispo, que principia no Campo até Diogo Pinto, 10

9.  Rua das Flores, que principia no Paço junto aos muros de Santa Teresa até o Campo, casas de José de Cruz Almada, 18 fogos

10. Rua do Carmo, que principia no Campo vindo por Santa Teresa até o Colégio, 37 fogos

11. Rua do Pelourinho até o Largo da Sé, 7 fogos

12. Rua que principia em Pascoal Alves até o Largo da Sé, 11 fogos

13. Rua que principia no Pátio de Colégio até o Procurador da Fazenda Real, 5 fogos

14. Rua do Rosário que principia no Pátio da Sé até o Rosário dos Pretos seguindo até Boa Vista, 4 fogos

15. Beco que vem do Colégio para a Misericórdia e compreende parte da Quitanda, 18 fogos

16. Desce o beco da Quitanda para a Rua do Rosário que continua esta até a Boa Vista, 35 fogos

17. Rua da Boa Vista que compreende a rua estreita ou beco defronte do Cabeleiro (sic) Monteiro até São Bento, 15 fogos

18. Rua de São Bento até a Cadeia e compreende os moradores do Anhangabaú de São Bento indo para Nossa Senhora da Luz, 38 fogos

19. Moradores do Pé da Ponte do Anhangabaú de baixo indo para Nossa Senhora da Luz, 21 fogos

20. Rua da Quitanda que principia no Canto de N. S. da Lapa até Francisco Pinto e segue defronte de Marcos Francisco até defronte de José Roiz. e Antonio Frz., 27 fogos

Referências bibliográficas

Andrade, Francisco de Paula Dias de. Subsídios para o Estudo da Influência da Legislação na Ordenação das Cidades Brasileiras. Tese para concurso de cátedra. Universidade de São Paulo, 1966

Anônimo. Para o Registro e Dietário do Mosteiro, 1766. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Vol. XVI, 1911. Tours, Imp. E Arrault et Cie., 1915 

Atas da Câmara da Cidade de São Paulo, 1562-1596. São Paulo, Divisão do Arquivo Histórico,1967

Actas da Câmara da Vila de São Paulo. São Paulo, Duprat & Cia, 1915

Carvalho Franco, Francisco de Assis. Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil. São Paulo, Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, s/d

Correal, Francisco. Um globe trotter do século XVII. Rio de Janeiro, Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (72):7-20, 1919.

 

COMO CITAR ESTE TEXTO (ABNT 2017):

ROCHA FILHO, Gustavo. Vila de São Paulo: evolução do traçado urbano. 2017. Disponível em: <http://historiadesaopaulo.com.br/vila-de-sao-paulo-evolucao-do-tracado-urbano/>. Acesso em: ___.

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